31 maio 2008

Os Vedas - 2



A princípio, a organização social da Índia foi calcada pelos brâmanes sobre suas concepções religiosas. Dividiram a sociedade em três classes, segundo o sistema ternário; mas, pouco a pouco, tal organização degenerou em privilégios sacerdotais e aristocráticos. A hereditariedade impôs os seus limites estreitos e rígidos às aspirações de todos. A mulher, livre e honrada nos tempos védicos, tornou-se escrava, e dos filhos só soube fazer escravos, igualmente. A sociedade condensou-se num molde implacável, a decadência da Índia foi a sua conseqüência inevitável. Petrificado em suas castas e seus dogmas, esse país teve um sono letárgico, imagem da morte, que nem mesmo foi perturbado pelo tumulto das invasões estrangeiras! Acordará ainda? Só o futuro poderá dizê-lo.

Os brâmanes, depois de terem estabelecido a ordem e constituído a sociedade, perderam a Índia por excesso de compressão. Assim também, despiram toda a autoridade moral da doutrina de Krishna, envolvendo-a em formas grosseiras e materiais.

Se considerarmos o Bramanismo somente pelo lado exterior e vulgar, por suas prescrições pueris, cerimonial pomposo, ritos complicados, tábulas e imagens de que é tão pródigo, seremos levados a nele não ver mais que um acervo de superstições. Seria, porém, erro julgá-lo unicamente pelas suas aparências exteriores.

No Bramanismo, como em todas as religiões antigas, cumpre distinguir duas coisas:
- Uma é o culto e o ensino vulgar, repletos de ficções que cativam o povo, auxiliando a conduzi-lo pelas vias da submissão. A esta ordem de idéias liga-se o dogma da metempsicose ou renascimento das almas culpadas em corpos de animais, insetos ou plantas, espantalho destinado a atemorizar os fracos, sistema hábil imitado pelo Catolicismo quando concebeu os mitos de Satanás, do inferno e dos suplícios eternos;
- A outra é o ensino secreto, a grande tradição esotérica que fornece sobre a alma e seus destinos, e sobre a causa universal, as mais puras e elevadas reflexões. Para conseguir isso, é necessário penetrar-se nos mistérios dos pagodes, folhear os manuscritos que estes encerram e interrogar os brâmanes sábios.


.........................................

Cerca de seiscentos anos antes da era Cristã, um filho de rei, Çãkyamuni ou o Buddha, foi acometido de profunda tristeza e imensa piedade pelos sofrimentos dos homens. A corrupção invadira a Índia, logo depois de alteradas as tradições religiosas, e, em seguida, vieram os abusos da teocracia ávida do poder. Renunciando às grandezas, à vida faustosa, o Buddha deixa o seu palácio e embrenha-se na floresta silenciosa. Após longos anos de meditação, reaparece para levar ao mundo asiático senão uma crença nova, ao menos uma outra expressão da Lei.


(Léon Denis - Depois da Morte)

Os Vedas - 1



Em "O Espiritismo ou Faquirismo Ocidental", Paul Gibier escreve que a idade dos Vedas ainda não pôde ser fixada, embora Souryo-Shiddanto, um astrônomo hindu cujas observações sobre a posição e percurso das estrelas remonta a cinquenta e oito mil anos, fale dos Vedas como obras já veneráveis pela sua antiguidade.

Os hinos védicos igualam em grandeza e elevação moral a tudo o que, no decorrer dos tempos, o sentimento poético engendrou de mais belo.

Celebram Agni, o fogo, símbolo do Eterno Masculino ou Espírito Criador; Sorna, o licor do sacrifício, símbolo do Eterno Feminino, Alma do Mundo, substância etérea. Em sua união perfeita, esses dois princípios essenciais do Universo constituem o Ser Supremo, Zians ou Deus. O Ser Supremo imola-se a si próprio e divide-se para produzir a vida universal. Assim, o mundo e os seres saídos de Deus voltam a Deus por uma evolução constante. Daí a teoria da queda e da reascensão das almas que se encontra no Oriente.

Ao sacrifício do fogo resume-se todo o culto védico. Ao levantar do dia, o chefe de família, pai e sacerdote ao mesmo tempo, acendia a chama sagrada no altar da Terra e, assim, para o céu azul, subia alegre a prece, a invocação de todos à Força única e viva, que está coberta pelo véu transparente da Natureza. Enquanto se cumpre o sacrifício, dizem os Vedas, os Assuras ou Espíritos superiores e os Pitris ou almas dos antepassados cercam os assistentes e se associam às suas preces. Portanto, a crença nos Espíritos remonta às primeiras idades do mundo.

Os Vedas afirmam a imortalidade da alma e a reencarnação:
“Há uma parte imortal do homem que é aquela, o Agni, que cumpre aquecer com teus raios, inflamar com teus fogos. – De onde nasceu a alma? Umas vêm para nós e daqui partem, outras partem e tornam a voltar.”

Os Vedas são monoteístas; as alegorias que se encontram em cada página apenas dissimulam a imagem da grande Causa primária, cujo nome, cercado de santo respeito, não podia, sob pena de morte, ser pronunciado. As divindades secundárias ou devas personificam os auxiliares inferiores do Ser Supremo, as forças vivas da Natureza e as qualidades morais.

Do ensino dos Vedas decorria toda a organização da sociedade primitiva, o respeito à mulher, o culto dos antepassados, o poder eletivo e patriarcal. Os homens viviam felizes, livres e em paz.

Durante a época védica, na vasta solidão dos bosques, nas margens dos rios e lagos, anacoretas ou rishis passavam os dias no retiro. Intérpretes da ciência oculta, da doutrina secreta dos Vedas, eles possuíam já esses misteriosos poderes, transmitidos de século em século, de que gozam ainda os faquires e os jogues. Dessa confraria de solitários saiu o pensamento inovador, o primeiro impulso que fez do Bramanismo a mais colossal das teocracias.

Krishna, educado pelos ascetas no seio das florestas de cedros que coroam os píncaros nevoentos do Himalaia, foi o inspirador das crenças dos hindus. Essa grande figura aparece na História como o primeiro dos reformadores religiosos, dos missionários divinos. Renovou as doutrinas védicas, apoiando-se sobre as idéias da Trindade, da imortalidade da alma e de seus renascimentos sucessivos. Selada a obra com o seu próprio sangue, deixou a Terra, legando à Índia essa concepção do Universo e da Vida, esse ideal superior em que ela tem vivido durante milhares de anos.

Sob nomes diversos, pelo mundo espalhou-se essa doutrina com todas as migrações de homens, de que foi origem a região da Índia. Essa terra sagrada não é somente a mãe dos povos e das civilizações, é também o foco das maiores inspirações religiosas.

(Léon Denis - Depois da Morte)

22 maio 2008

Franz Anton Mesmer


Mesmer, médico austríaco, foi o criador da "Teoria do Magnetismo Animal", conhecida pelo nome de "Mesmerismo".

Nasceu no dia 23 de Maio de 1734, numa pequena vila perto do Lago Constance, de nome Iznang. Estudou teologia em Ingolstadt e formou-se em medicina na Universidade de Viena. Na posse de abastados recursos económicos, Mesmer pôde dedicar-se a longos estudos científicos, chegando a dominar os conhecimentos de seu tempo, época de acentuado orgulho intelectual e cepticismo. Era um trabalhador incansável, calmo, paciente e ainda um excelente músico.

Em 1775, após muitas experiências, Mesmer reconhece que pode curar mediante a aplicação de suas mãos, percebendo pelos dons da intuição que delas se desprende um fluido que alcança o doente.

"De todos os corpos da Natureza, é o próprio homem que com maior eficácia actua sobre o homem", afirma Mesmer, adivinhando que a doença é apenas uma desarmonia no equilíbrio da criatura.

Nada cobrando pelos tratamentos, Mesmer dedicou-se principalmente a cuidar de distúrbios ligados ao sistema nervoso. Além da imposição das mãos sobre os doentes, para estender o benefício a maior número de pessoas, magnetizava água, pratos, cama, etc., cujo contacto submetia os enfermos.

Mesmer praticou durante anos o seu método de tratamento em Viena e em Paris, com evidente êxito, mas acabou expulso de ambas as cidades pela inveja e incompreensão de muitos.

Depois de cinco tentativas para conseguir exame judicioso do seu método de curar, pelas academias, é que publica, em 1779, a "Dissertação sobre a descoberta do magnetismo animal", na qual afirma que esta é uma ciência com princípios e regras, embora ainda pouco conhecida. A sua popularidade prosseguiu por muitos anos, mas outros médicos o taxavam de impostor e charlatão. Em 1784, o governo francês nomeou uma comissão de médicos e cientistas para investigar suas actividades. Benjamin Franklin foi um dos membros dessa comissão, que acabou por constatar a veracidade das curas, porém as atribuíram não ao magnetismo animal, mas a outras causas fisiológicas desconhecidas.

Concentrado no alívio à dor, Mesmer não chegou a perceber a existência do sonambulismo artificial, que seu ilustre e generoso discípulo, Maxime Puységur, descobre (inclusive a clarividência a ele associada), o qual se desenvolve durante o transe magnéticos em certas pessoas.

Em 1792, Mesmer vê-se forçado a retirar-se de Paris, vilipendiado, e instala-se em pequena cidade suíça, onde vive durante 20 anos sempre servindo aos necessitados e sem nunca desanimar nem se queixar.

Em 1812, já aos 78 anos, a Academia de Ciências de Berlim convida-o para prestar esclarecimentos, pois pretendia investigar a fundo o magnetismo. Era tarde; ele recusa o convite. A Academia encarrega o Prof. Wolfart de entrevistá-lo. O depoimento desse professor é um dos mais belos a respeito do caridoso médico: "Encontrei-o dedicando-se ao hospital por ele mesmo escolhido. Acrescente-se a isso um tesouro de conhecimentos reais em todos os ramos da Ciência, tais como dificilmente acumula um sábio, uma bondade imensa de coração que se revela em todo o seu ser, em suas palavras e acções, e uma força maravilhosa de sugestão sobre os enfermos."

No início de 1814, ele regressou para Iznang, sua terra natal, onde permaneceria os seus últimos dias até falecer em 5 de Março de 1815.

Assim foi Mesmer, durante anos semeando a cura de enfermos, doando de seu próprio fluido vital em atitude digna daqueles que sacrificam-se por amor ao seu trabalho e a seus irmãos. Suas teorias atravessaram décadas e seu exemplo figura luminoso entre os missionários que sob o açoite das críticas descabidas e as agressões da calúnia, passam incólume escudado pelo dever rectamente desempenhado. Seu nome jamais se desligará do vocábulo "fluido" e sua vida valiosa pelos frutos que gerou, jamais será esquecida por aqueles cuja honestidade de propósitos for o ornamento de seus espíritos. A sua obra foi decisiva para demonstrar a realidade da imposição das mãos como meio de alívio aos sofrimentos, tal como a utilizavam os primeiros cristãos antigamente e os espíritas actualmente.

20 maio 2008

Mesas Girantes - 3


Outra finalidade do fenómeno inicial parece ter sido afastar a descrença baseada nas teorias "magnética" e do "meio ambiente" (ou "reflectiva") que Allan kardec, ainda na sua introdução (cap. XVI) ao LE, descreve em breves linhas.

A teoria magnetica ou dos efeitos magnéticos considera que todas as manifestações atribuídas aos Espíritos não seriam mais do que efeitos magnéticos. Os médiuns, não são médiuns, apenas se acham num estado a que se poderia chamar sonambulismo desperto e em que as faculdades intelectuais adquirem um desenvolvimento anormal; o círculo das operações intuitivas se amplia, para além das raias da nossa concepção ordinária, tirando o "médium" de si mesmo e por efeito da sua lucidez tudo o que diz e todas as noções que transmite, mesmo sobre os assuntos que mais estranhos lhe sejam, quando no estado habitual.

Ora, de início, o fenómeno das mesas girantes serviu para mostrar que havia uma causa inteligente exterior ao médium, o que seria menos óbvio no caso de se ter recorrido logo à psicografia por exemplo.

Ainda assim, Kardec tece considerações que, mesmo agora no caso da psicografia, refutem esta teoria como argumento em desfavor do espiritismo (mas porém pode explicar algumas excepções de falsa mediunidade). Uma observação cuidadosa e prolongada mostrará que a intervenção do médium é a de instrumento passivo:
- se a teoria espírita é um sistema imaginado por esses mediuns "somnâmbulos" porque a teriam eles atribuído aos Espíritos?
- a falta de unidade nas manifestações obtidas pelo mesmo médium prova a diversidade das fontes. Ora, desde que não as podemos encontrar todas nele, forçoso é que as procuremos fora dele.

A teoria do meio ambiente ou reflectiva também foi afastada pelo fenómeno das mesas girantes e batedoras, o que seria menos evidente no caso da psicografia. Com o fenómeno inicial, é óbvio que a vontade do médium não intervém, e só depois se soube que apenas eram instrumentos passivos, de cujo fluido os Espíritos se serviam para mover as mesas.

Aqui ainda, prevendo as futuras dúvidas no caso da psicografia nomeadamente, Allan Kardec tece argumentos sólidos e lógicos contra esta teoria que sustenta ser o "médium" apenas a única fonte produtora de todas as manifestações, mas, em vez de extraí-las de si mesmo (teoria magnética ou sonâmbula), ele as toma ao meio ambiente, agindo como uma espécie de espelho a reflectir todas as ideias, todos os pensamentos e todos os conhecimentos das pessoas que o cercam; nada diria que não fosse conhecido, pelo menos, de algumas destas.

Certas comunicações do médium são completamente estranhas aos pensamentos, aos conhecimentos, às opiniões mesmo de todos os assistentes; frequentemente espontâneas, contradizem todas as ideias preconcebidas.

E mesmo sustentando esta teoria que se dá uma irradiação que vai muito além do círculo imediato que envolve o médium, sendo este o reflexo de toda a Humanidade, de tal modo que se as inspirações não lhe vêm dos que se acham a seu lado, ele as vai beber fora, na cidade, no país, em todo o globo e até nas outras esferas, sempre se mostra que a ideia de que os espíritos, em contacto connosco, nos comunicam seus pensamentos, nada tem que choque mais a razão do que a suposição dessa irradiação universal, vindo, de todos os pontos do Universo, concentrar-se no cérebro de um indivíduo.

Estas teorias (sonâmbula e reflectiva) foram imaginadas por alguns homens; são opiniões individuais, criadas para explicar um facto, ao passo que a Doutrina dos Espíritos não é de concepção humana. Foi ditada pelas próprias Inteligências que se manifestaram, quando ninguém disso cogitava, quando até a opinião geral a repelia.

Relata Kardec nesse capitulo XVI argumentos e factos que demonstram, na inteligência que se manifesta, uma individualidade evidente e uma absoluta independência de vontade.

Mas convém entender o porquê do fenómeno inicial e a sua subsequente substituição pelas formas mais comuns actualmente de mediunidade: as primeiras manifestações, na França, como na América, não se verificaram por meio da escrita nem da palavra, e, sim, por pancadas concordantes com as letras do alfabeto e formando palavras e frases. Foi por esse meio que as inteligências, autoras das manifestações, se declararam Espíritos. Ora, dado se pudesse supor a intervenção do pensamento dos médiuns nas comunicações verbais ou escritas, outro tanto não seria lícito fazer-se com relação às pancadas, cuja significação não podia ser conhecida de antemão.

Vale a pena ler:
"O Livro dos Espíritos",
Introdução de Allan Kardec,
Capítulos II a V, e IX.

Mesas Girantes - 2


Ainda quanto á questão da fraude, não só a caligrafia mostrava se bem diferente da escrita por alguns dos médiuns presentes, bem como muito do conteúdo cientifico, filosófico, poético ou mera gramática e linguagem até estrangeira, revelando sabedoria, pensamentos elevados e sublimes, era notoriamente fora do conhecimento e alcance intelectual dos presentes, médiuns ou outros presentes.

Também foram dadas respostas a questões colocadas mentalmente ou em idioma estrangeiro e desconhecido pelos presentes à excepção do que colocava a questão.

Ainda assim, se preciso fosse, a hipótese da fraude foi afastada pelas seguintes considerações:
- o carácter isento da pessoas presentes e a falta de interesse que teriam em simular a fraude.
- a persistência do fenómeno traduzindo-se na impossibilidade de uma fraude indefinidamente prolongada no tempo, pois seria em primeiro lugar fastidiosa para o próprio mistificador.
- inconcebível generalização da fraude em simultâneo em vários lugares do mundo, impossibilidade de um conluio mundial, de forma a obter em simultâneo, em vários lugares da Terra, os mesmos efeitos, as mesas comunicações e conteúdos das mesmas sobre assunto idêntico.
- não há fraude nem charlatanismo onde não há lucro, como é o caso.
- e quando os médiuns são crianças, como obter paciência, habilidade e conhecimento intelectual necessário destas?

E seria uma ilusão geral? O carácter de revelação da nova doutrina, o carácter simultâneo da revelação ao mesmo tempo em diversos lugares, a natureza séria e ponderada de muitos dos que estudaram o fenómeno, sem interesse em propagar erros nem fraudes, nem tempo em futilidades, é presunção favorável a afastar a ideia que os incrédulos e cépticos tenham, segundo palavras de Allan Kardec, o "monopólio do bom senso".

Essa foi a utilidade do fenómeno.
Afastar a ideia de fraude ou ilusão.

Hoje, e tendo Kardec reunido na Codificação as respostas dos Espíritos as várias perguntas filosóficas que lhes foram colocadas, o apelo é antes dirigido á razão do que à curiosidade do fenómeno, este na época (sec XIX) o B-A-BA do Espiritismo, apenas útil no inicio da revelação da doutrina pelos Espíritos.

Kardec na época, suspeitando a fraude no entanto cedo se rendeu à realidade dos factos. De Saul, virou Paulo. E nos legou a síntese dos primeiros ensinamentos pelos Espíritos da realidade do mundo espiritual através da codificação da revelação espírita inicial.

Livro dos Espíritos - 1857
Livro dos Médiuns - 1861
O Evangelho segundo o Espiritismo - 1864
O Céu e o Inferno - 1865
A Génese - 1868

Mesas Girantes - 1



No século XIX, ocorreu e generalizou-se, na América, na Europa e noutras partes do mundo, o fenómeno conhecido como "mesas girantes" ou "danças das mesas".

Pessoas sentadas a volta de uma mesa, eram surpreendidas pelo movimento inexplicado desta ou de outros objectos, por ruídos insólitos ou golpes deferidos sem que fosse compreensível, ostensiva ou conhecida a causa destes fenómenos.

O movimento dos objectos, em particular das mesas, não era um movimento circular, regular, próprio das leis conhecidas do Universo, mas antes se revelava brusco e desordenado, nunca se produzindo de maneira idêntica. A mesa e demais objectos eram sacudidos com violência, derrubados, conduzidos numa direcção qualquer e contrariando todas a leis da estática, mantidos em suspensão no ar.

Ainda assim procurou-se explicar tal fenómeno pelas leis ainda desconhecidas da física, por exemplo da electricidade então no início do seu estudo e compreensão científica.

Depressa se percebeu, quem sabe por intuição, que o movimento desses objectos não era somente o produto de uma força mecânica e cega, mas antes nele existia uma causa inteligente, revelando a existência de manifestações inteligentes que se comunicavam com os presentes através desse fenómeno próprio a atrair a atenção.

Alguns dos presentes tiveram a ideia de fazer perguntas e estabelecer um código para resposta da entidade que se manifestava através do movimento da mesa, por sim ou não, uma batida do pé da mesa para sim, duas batidas para não. Depois, motivado pelo seu cesso das primeiras respostas por sim e por não, novo código foi estabelecido: deu-se um número de ordem para cada letra do alfabeto, a manifestação respondendo pelo numero de batidas do pé da mesa, correspondendo a letra, juntando se as letras, formando palavras e frases, assim obtendo-se respostas mais completas que surpreenderam os presentes.

O ser que respondia apresentou-se como um Espírito, a alma de um homem que havia vivido tal como os presentes e que, morto o corpo físico, a este sobrevivera.

Esse Espírito então disse como obter meio de comunicação mais célere: explicou que o fenómeno dependia do fluido humano presente em maior proporção nas pessoas dotadas de mediunidade de efeitos físicos. E que atassem um lápis a uma cesta, a colocassem sobre uma folha de papel e alguns dos presentes, mais do que um, designados pelo Espírito como dotados dessa mediunidade (médium = intermediário entre o mundo físico e o mundo dos Espíritos), colocassem cada um, em conjunto, a ponta de um dedo sobre a orla da cesta. Depois substituiu se a cesta por uma prancheta.

O contacto entre os dedos dos médiuns e o objecto permitiam envolver este como o fluido, e assim, o Espírito podia manipular o objecto fluidificado, escrevendo mais rápido, dando resposta mais completas e mais céleres.

Assim também se explica a anterior manifestação das mesas e demais objectos, pela presença dos médiuns, usando o fluido mediúnico para agir sobre as mesas, os Espíritos despertaram em larga escala a atenção dos que presenciaram tal fenómeno. Nunca teriam obtido o mesmo resultado pela psicografia (o médium escrevendo directamente com a mão por influência do Espírito), pois seria mais fácil a desconfiança de se estar perante uma fraude.

Obviamente, era difícil - impossível - apenas com a ponta de um dedo, e dois médiuns colocando um dedo na cesta ou prancheta, manobrar o lápis para escrever com celeridade mensagens completas e extensas.

Sempre houve comunicações mediúnicas, a Bíblia está recheada delas, mas no século XIX generalizou se o dom da mediunidade e o intercâmbio entre os dois lados da vida. O fenómeno da dança das mesas teve a função de atrair e convencer os incrédulos, acelerando o desenvolvimento do dom da mediunidade nos que aceitaram antes de reencarnar tal tarefa de mensageiro ou intermediário do mundo espiritual: o médium.

E teve a função de despertar para sua missão o maior dos incrédulos que, suspeitando a fraude e decidido a desvendá-la, ficou conhecido pelo Codificador do espiritismo: Allan Kardec.

03 fevereiro 2008

As Religiões - A Doutrina Secreta - 2



"Se, do domínio dos factos, passarmos ao dos princípios, teremos de esboçar desde logo as grandes linhas da doutrina secreta. Ao ver desta, a vida não é mais que a evolução, no tempo e no espaço, do Espírito, única realidade permanente. A matéria é sua expressão inferior, sua forma variável.

O Ser por excelência, fonte de todos os seres, é Deus, simultaneamente triplo e uno – essência, substância e vida –, em que se resume todo o Universo. Daí o deísmo trinitário que, da Índia e do Egipto, passou, desfigurando-se, para a doutrina cristã. Esta, dos três elementos do Ser, fez as pessoas.

A alma humana, parcela da grande alma, é imortal. Progride e sobe para o seu autor através de existências numerosas, alternativamente terrestres e espirituais, por um aperfeiçoamento contínuo. Em suas encarnações, constitui ela o homem, cuja natureza ternária – o corpo, o perispírito e a alma –, centros correspondentes da sensação, sentimento e conhecimento, torna-se um microcosmo ou pequeno mundo, imagem reduzida do macrocosmo ou Grande-Todo. Eis por que podemos encontrar Deus no mais profundo do nosso ser, interrogando a nós mesmos na solidão, estudando e desenvolvendo as nossas faculdades latentes, a nossa razão e consciência.

Tem duas faces a vida universal: a involução ou descida do Espírito à matéria para a criação individual, e a evolução ou ascensão gradual, na cadeia das existências, para a Unidade divina.


(…) Este ensino abria ao pensamento perspectivas susceptíveis de causarem vertigem aos espíritos mal preparados, e por isso era somente reservado aos fortes. Se, por verem o infinito, as almas débeis ficam perturbadas e desvairadas, as valentes fortificam-se e medram. É no conhecimento das leis superiores que estas vão beber a fé esclarecida, a confiança no futuro, a consolação na desgraça. Tal conhecimento produz benevolência para com os fracos, para com todos esses que se agitam ainda nos círculos inferiores da existência, vítimas das paixões e da ignorância; inspira tolerância para com todas as crenças. O iniciado sabia unir-se a todos e orar com todos. Honrava Brahma na Índia, Osíris em Mênfis, Júpiter na Olímpia, como pálidas imagens da Potência Suprema, directora das almas e dos mundos. É assim que a verdadeira religião se eleva acima de todas as crenças e a nenhuma maldiz.

O ensino dos santuários produziu homens realmente prodigiosos pela elevação de vistas e pelo valor das obras realizadas, uma elite de pensadores e de homens de acção, cujos nomes se encontram em todas as páginas da História. Daí saíram os grandes reformadores, os fundadores de religiões, os ardentes propagandistas: Krishna, Zoroastro, Hermes, Moisés, Pitágoras, Platão e Jesus; todos os que têm posto ao alcance das multidões as verdades sublimes que fazem sua superioridade. Lançaram aos ventos a semente que fecunda as almas, promulgaram a lei moral, imutável, sempre e em toda parte semelhante a si mesma.

Mas, não souberam os discípulos guardar intacta a herança dos mestres. Mortos estes, os seus ensinos ficaram desnaturados e desfigurados por alterações sucessivas. A mediocridade dos homens não era apta a perceber as coisas do espírito e bem depressa as religiões perderam a sua simplicidade e pureza primitivas. As verdades que tinham sido ensinadas foram sufocadas sob os pormenores de uma interpretação grosseira e material. Abusou-se dos símbolos para chocar a imaginação dos crentes e, muito breve, a ideia mater ficou sepultada e esquecida sob eles. (…) O que nos vem de cima mancha-se ao contacto terrestre. Até mesmo ao seio dos templos levou o homem as suas concupiscências e misérias morais.

Por isso, em cada religião, o erro, este apanágio da Terra, mistura-se com a verdade, este bem dos céus."

(Léon Denis, "Après la Mort", 1889)

As Religiões - A Doutrina Secreta - 1



"Quando se lança um golpe de vista sobre o passado, quando se evoca a recordação das religiões desaparecidas, das crenças extintas, apodera-se de nós uma espécie de vertigem ante o aspecto das sinuosidades percorridas pelo pensamento humano.

(…) levantando-se o véu exterior e brilhante que ocultava às massas os grandes mistérios, penetrando-se nos santuários da ideia religiosa, achamo-nos em presença de um facto de alcance considerável. As formas materiais, as cerimónias extravagantes dos cultos tinham por fim chocar a imaginação do povo. Por trás desses véus, as religiões antigas apareciam sob aspecto diverso, revestiam carácter grave e elevado, simultaneamente científico e filosófico. Seu ensino era duplo: exterior e público de um lado, interior e secreto de outro, e, neste último caso, reservado somente aos iniciados.

(…) todos os ensinos religiosos do passado se ligam, porque, em sua base, se encontra uma só e mesma doutrina, transmitida de idade em idade a uma série ininterrupta de sábios e pensadores.

Todas as grandes religiões tiveram duas faces, uma aparente, outra oculta. Está nesta o espírito, naquela a forma ou a letra. Debaixo do símbolo material, dissimula-se o sentido profundo. Para conhecê-las é preciso penetrar o pensamento íntimo que lhes inspira e motiva a existência; cumpre desprender do selo dos mitos e dogmas o princípio gerador que lhes comunica a força e a vida. Descobre-se, então, a doutrina única, superior, imutável, de que as religiões humanas não são mais que adaptações imperfeitas e transitórias, proporcionadas às necessidades dos tempos e dos meios.

(…) Os sábios do Oriente e da Grécia não desdenhavam observar a natureza exterior, porém era sobretudo no estudo da alma, de suas potências íntimas, que descobriam os princípios eternos. Para eles, a alma era como um livro em que se inscrevem, em caracteres misteriosos, todas as realidades e todas as leis. Pela concentração de suas faculdades, pelo estudo profundo e meditativo de si mesmos, elevaram-se até à Causa sem causa, até ao princípio de que derivam os seres e as coisas. As leis inatas da inteligência explicavam-lhes a harmonia e a ordem da Natureza, assim como o estudo da alma lhes dava a chave dos problemas da vida.

A alma, acreditavam, colocada entre dois mundos, o visível e o oculto, o material e o espiritual, observando-os, penetrando em ambos, é o instrumento supremo do conhecimento. Conforme seu grau de adiantamento ou de pureza, reflecte, com maior ou menor intensidade, os raios do foco divino. A razão e a consciência não só guiam nossa apreciação e nossos actos, mas também são os mais seguros meios para adquirir-se e possuir-se a verdade.

A tais pesquisas era consagrada a vida inteira dos iniciados. (...) Os adeptos eram escolhidos, preparados desde a infância para a carreira que deviam preencher e, depois, levados gradualmente aos píncaros intelectuais, de onde se pode dominar e julgar a vida. Os princípios da ciência secreta eram-lhes comunicados numa proporção relativa ao desenvolvimento das suas inteligências e qualidades morais. A iniciação era uma refundição completa do carácter, um acordar das faculdades latentes da alma. Somente quando tinha sabido extinguir em si o fogo das paixões, comprimir os desejos impuros, orientar os impulsos do seu ser para o Bem e para o Belo, é que o adepto participava dos grandes mistérios. Obtinha, então, certos poderes sobre a Natureza, e comunicava-se com as potências ocultas do Universo."

(Léon Denis, "Après la Mort", 1889)

12 dezembro 2007

A reencarnação (Guilgul Neshamot) no Judaísmo: no Antigo Testamento, na Torá e na Cabala



"A Bíblia possui do Gênesis ao Apocalipse passagens sobre a Reencarnação e isto no texto original HEBRAICO.

Todo judeu ortodoxo é reencarnacionista e o é, com base na Torá que é um livro respeitado e seguido pelos judeus.

A Cabalá, ciência judaica, fala claramente da Reencarnação e ainda esclarece que a Bíblia possui 613 mandamentos e que o judeu só pode ir à Deus quando tiver cumprido todos os 613 mandamentos. E acrescenta que isto não pode ser cumprido em uma só existência. Por isso, o judeu volta várias vezes em um processo que em hebraico se chama “Guilgul Neshamot” que significa “Transmigração das Almas". É semelhante a nossa conhecida reencarnação. A diferença é que para eles, o espírito muito ruim pode retroceder e voltar como animal."

Severino Celestino da Silva(*)


(*)Professor da Universidade Federal da Paraíba, ex-seminarista, pesquisador, autor dos livros: "Analisando as Traduções Bíblicas" e "O Sermão do Monte"

13 setembro 2007

Orfeu - 4



A vinda de Orfeu e a Grécia clássica



Foi então que apareceu na Trácia um jovem de estirpe real e da mais sublime beleza e sedução. Dizia-se que era filho de uma sacerdotisa de Apolo. A sua melodia da sua voz tinha um estranho encanto. Cantava os deuses de um modo novo e inspirado. Seus cabelos louros, orgulho da raça dórica, corria em ondas douradas sobre os seus ombros. Sua boca, quando cantava, tinha contornos suaves e melancólicos. Seu olhar, de um azul profundo, brilhava com uma força meiga e mágica, perante a qual os Trácios, homens guerreiros, não se deixavam amansar, mas que as mulheres diziam, entre si, misturar a força solar e a carícia lunar. As Bacantes o procuravam e desejam pela sua beleza e sorriam sem compreender o seu cântico. Um dia este jovem, que chamavam o filho de Apolo, desapareceu: dizia-se que tinha morrido, descendo aos infernos. Na verdade, foi secretamente para o Egipto, onde pediu refúgio aos sacerdotes do Templo de Mênfis: estes ensinaram-lhe a sua doutrina e os seus mistérios, confiando-lhe, ao fim de vinte anos de aprendizagem, a missão de voltar à Grécia e, salvando-a das divisões religiosas, pacifica-la com uma nova doutrina; deram-lhe por nome de iniciado, o de Orfeu: “aquele que cura pela luz”.

O mais velho Templo de Zeus, no monte Kaoukäôn, que antigamente reinava sobre a organização social e religiosa de toda a Trácia, agora estava quase desertificado pela supremacia da doutrina lunar. O pequeno numero de sacerdotes que ainda ali permanecia recebeu Orfeu como um salvador: pela sua ciência adquirida no Templo de Mênfis e pelo seu entusiasmo, o maior poeta de todos os tempos ganhou à nova revelação teológica a maior parte dos Trácios, transformando totalmente a figura de Baco na do celeste Dionisios, símbolo do espírito divino que evoluí através todos os reinos da natureza e domando as Bacantes. A sua influência, através dos mistérios órficos, em pouco tempo invadiu todos os templos da Grécia, impôs o reino de Zeus na Trácia e o de Apolo na cidade de Delfos, devendo-lhe a Grécia dórica a sua unidade social e politica, as suas leis e a sua alma, revelada nas artes e nas ciências, que tanto influenciaram Roma e da qual ainda hoje toda a nossa civilização ocidente é herdeira.

Orfeu fundiu, na revelação da doutrina teológica do Dioniso celeste, o culto solar de Zeus e de Apolo com o culto lunar de Baco, num equilíbrio universal e pleno entre o princípio masculino e o princípio feminino: revelou aos iniciados, nos Templos, a luz pura desta verdade sublime, e ao povo, numa luz mais velada sob a alegoria poética e novos ritos e festas, a mesma verdade benfazeja.

A luz de Orfeu brilha na eternidade, pelo seu génio criador e pela sua alma que canta o amor mais puro e profundo entre as eternas essências feminina e masculina que pulsam na natureza, na humanidade e na pátria espiritual. Através dos tempos foi admirado pelos iniciados, pelos poetas e pelos filósofos. É a sua alma que permanece na admiração dos historiadores pela Grécia clássica.

Orfeu - 3



A Grécia pré-órfica - O Culto solar - As Bacantes


Na época pré-órfica, existia na Trácia uma rivalidade entre as religiões do culto solar e do culto lunar, através da qual os sacerdotes de cada uma destas doutrinas teológicas totalmente opostas lutavam ferozmente pela supremacia do seu modelo de organização social. O culto solar tinha seus templos no alto das serras e das montanhas, sacerdotes homens e leis severas; já o culto lunar era realizado nas florestas e nos vales, por sacerdotisas e com ritos que celebravam a volúpia, as artes ocultas e os prazeres orgíacos. Verificava-se uma guerra de morte entre os sacerdotes do sol e as sacerdotisas da lua, que era, na verdade, a luta antiga, inevitável e eterna, declarada ou dissimulada, entre o principio masculino e principio feminino que preenche de seus desfechos alternativos a História e onde se tece o segredo que explica os mundos: é a fusão perfeita entre masculino e feminino que constitui a essência e o mistério da divindade, assim é só o equilíbrio entre estes dois princípios que produz as grandes civilizações.

Na Trácia, bem como na Grécia, o culto dos deuses cosmogónicos e solares tinha sido afastado para as altas serras e montanhas, lugares ermos e regiões desertas. O povo preferia os cultos lunares das divindades femininas que celebravam as paixões perigosas e as forças cegas da natureza: a divindade suprema era feminina. Surgiram então os abusos, nos quais as sacerdotisas do culto lunar se apropriaram, num acto de supremacia da mulher sobre o homem, do antigo culto de Baco, tornando-o sangrento e temível, tomando o nome de Bacantes para simbolizar sua vitória e seu domínio soberano. Eram magas sedutoras, cujos rituais sacrificavam seres humanos e celebravam Hecate, divindade, e Baco, divindade com face de touro com suas danças sensuais, em seus santuários de vales selvagens e escondidos, no seio da vegetação luxuriante e magnífica. Os sacerdotes do culto solar que aí se aventuravam, tentando espiá-las para desvendar seus segredos, eram capturados e imediatamente mortos. Muitos dos chefes trácios permaneceram fiéis ao culto solar, mas as Bacantes ganharam à sua causa, pela volúpia e pelo terror, muitos dos reis trácios que aos costumes bárbaros deste povo austero e guerreiro uniram de os gostos luxuosos e refinados descobertos ao contacto da Ásia. Os deuses tinham dividido a Trácia em dois campos opostos e inimigos: os sacerdotes do culto solar, de Zeus e Apolo, no cimo das serras e das montanhas, mostravam-se impotentes a travar, nos vales, o culto lunar que ameaçava chegar aos Templos das divindades do sol.

Orfeu - 2



A Grécia pré-órfica - A Trácia - 2


A noroeste da Grécia existia a Trácia (actualmente dividida entre Grécia, Bulgária e Turquia desde 1919/1923), pais selvagem e rude de altas montanhas cobertas de carvalhos gigantes, varridas pelo vente do norte e frequentes trovoadas e chuvas torrenciais. Aí viviam os Dórios, raça guerreira (cujo modelo social foi mais tarde imitado por Esparta) de origem indo-europeia que acabaria por invadir toda a Grécia em 1200 a.C., substituindo nas cidades gregas a monarquia pela oligarquia e iniciando a época áurea da civilização dórica.

A Trácia foi sempre considerada pelos gregos como uma região santa, o país da luz espiritual e a verdadeira pátria das musas. Trácia, “Trakia”, tem origem etimológica na palavra fenícia “rakhiwa”, que significa espaço etéreo ou firmamento. No alto de suas montanhas existiam os mais velhos templos de Zeus, Crono, Urano. Aí tinham tido suas origens a poesia, as leis, as artes sacras, que a civilização ocidental deve à Grécia, pela mediação de Roma.

Segundo a antiga tradição trácia, a poesia foi inventada por Olen, palavra fenícia que significa o “ser universal”. Apolo tem a mesma raiz – Ap-Olen – e significa o “pai universal”. No inicio, a cidade de Delfos cultuava o ser universal sob o nome de Olen; o culto de Apolo veio depois, sob a influência da doutrina do verbo solar, vinda dos templos da Índia e do Egipto. Apolo, o pai universal, tinha dupla manifestação: a luz espiritual, hiperfísica, e a manifestação da estrela solar no céu. Porém, este culto era reservado aos iniciados, no templo de Delfos, e foi Orfeu que a desenvolveu nos mistérios dionisíacos e deu outra dimensão ao verbo solar de Apolo.

Para os maiores poetas, filósofos e grandes iniciados da Grécia, tais como Pindare, Ésquilo ou Platão, o nome da “Trácia” tinha uma forte simbólica e significava “o pais da doutrina pura e da poesia sagrada”, tendo um sentido filosófico e histórico: era uma região intelectual, o conjunto das doutrinas e das tradições segundo as quais o mundo é obra de uma inteligência divina; e também era a raça dórica, herdeira do antigo espírito ariano, a que a Grécia devia a doutrina e a poesia cultuadas no templo de Apolo em Delfos.

Os maiores poetas da época eram trácios: Thamyris, Linos ou Amphion inventaram a poesia cosmogónica, a poesia da doutrina solar (ou doutrina dórica mais ortodoxa e que influenciou as artes e toda a civilização helénica) e a poesia do culto lunar (mais emotiva, lacrimosa e voluptuosa). A poesia era então considerada a linguagem dos deuses, a consagrar uma teologia, cobrindo com o véu da alegoria os mistérios da natureza e os mais sublimes conceitos morais, só compreensíveis aos iniciados desses mistérios. Etimologicamente, “poesia” tem sua origem nas palavras fenícias “phohe” (voz) e “ish” (deus).

Orfeu - 1


Edouard Schuré, filósofo e poeta francês (1841-1929), no seu livro "Os Grandes Iniciados" (Les Grands Initiés, Paris, 1889), escreveu sobre Orfeu (Livro V) vários cápitulos que me decidi finalmente a traduzir para o blog... deixo neste post a primeira parte...



A Grécia pré-órfica - A Trácia - 1


Nos templos de Apolo que guardavam a tradição órfica, a cada equinócio de primavera celebrava-se numa festa secreta a vinda anual do deus invisível de regresso do país hiperbóreo. A grande sacerdotisa entoava, perante alguns iniciados, o cântico do nascimento de Orfeu, filho de Apolo e de uma sacerdotisa deste deus, invocando a alma daquele que fora o pai dos místicos, o salvador melodioso dos homens, o rei imortal e três vezes coroado: no inferno, na terra e no céu, em que tem lugar entre os deuses e as estrelas.

Esse cântico místico da sacerdotisa de Delfos celebra o segredo apenas conhecido do Templo e ignorado do povo: Orfeu foi o anjo descido dos céus para despertar a alma mística da Grécia. Cada uma das sete cordas da lira de Orfeu despertou uma virtude da alma humana, uma lei das ciências e das artes, e as sete juntas vibravam em plena harmonia com todo o universo. Perdeu-se o cântico dessa plena harmonia, mas cada uma das ciências e das artes que Orfeu despertou na Grécia foram transmitidas pela civilização helénica a toda a Europa.

Vivemos numa época de (quase) plena devoção ao materialismo, em que a alma humana está perturbada pela perda da fé nas belezas naturais da vida e por correrias, angustias, depressões e outros “stresses”, doenças modernas que escondem uma profunda, inconsciente e invencível esperança de reencontrar um sentido harmonioso e espiritual à existência. E esta inconsciente esperança e teimosa fé na beleza da vida, o Ocidente deve-a a Orfeu, que iniciou a Grécia antiga à poesia e à música enquanto artes reveladoras da verdade eterna.

A Grécia do tempo de Orfeu, era a do tempo em que Moisés tirava o povo hebreu do cativeiro egípcio, cinco séculos antes dos cânticos de Homero, treze séculos antes de Jesus reencarnar na Galileia. A Índia, perdida a sua antiga gloria e mística da epopeia ariana de Rama (5ooo a 4000 a.C.), entrava na sua idade das trevas, o Kali-Youg, enquanto aguardava o novo mensageiro de Deus, Krishna. A Assíria, liderada pela tirânica cidade de Babilónia, esmagava a Ásia e libertava no mundo o flagelo da anarquia. O Egipto, brilhante civilização pela ciência dos seus sacerdotes e pelos seus faraós, tentava resistir a essa fase de degradação geral, mas a sua influência só se fazia sentir do mediterrâneo até ao Eufrates.

Na Grécia, reinava a divisão na religião e na política.

Península serrana e montanhosa, de orla marítima rendilhada e cercada de uma multidão de ilhas do mediterrâneo, tinha sido colonizada desde o II milénio a.C. por sucessivas raças de povos navegadores, desde celtas, indo-europeus, egípcios e fenícios, que se misturaram e formaram um idioma harmonioso e simples, que parecia imitar todas as vozes da natureza, mas influenciaram culturas e religiões diversificadas. Nessa época, toda a vida intelectual era exclusivamente provinda dos templos, e cada uma das religiões da Grécia representava conceitos diferentes de natureza, organizações diversas de vida social, civil e religiosa, e leis próprias. O povo adorava diversas divindades locais, deusas tais como Afrodite, Ártemis, Ceres (Deméter), em cuja protecção confiava cegamente. As divindades masculinas, mais cosmogónicas, eram cultuadas por iniciados, sobretudo em lugares retirados, no alto das serras e das montanhas gregas, mas pouca influência tinham. Aos mais universais Apolo, o deus solar, ou Zeus, preferiam-se as deusas que representavam as poderosas e temidas forças, sedutoras ou terríveis, da natureza. Mas sendo divindades locais, as cidades e templos rivais guerreavam entre si, movidos por ódios e ambições de sacerdotes e reis.

02 abril 2007

Celtas 1


A doutrina céltica acreditava que a alma é imortal e chega ao aperfeiçoamento através das reencarnações.


Admitia como certa a lei de causa e efeito: o homem era livre para fazer tudo aquilo que quisesse fazer, mas cada um era responsável pelo próprio destino, de acordo com os actos que livremente praticasse. Toda a acção era livre, mas traria sempre uma consequência, boa ou má, segundo as obras praticadas. A crença céltica e druídica dizia que o homem teria a ajuda dos espíritos protectores e sua libertação dos ciclos reencarnatórios seria mais rápida assim. Cada pessoa tinha a responsabilidade de passar seus conhecimentos adiante, para as pessoas que estivessem igualmente aptas a entenderem a lei de causa e efeito, também conhecida actualmente como lei do carma.

Os celtas cultuavam a Mãe Natureza.

A religião celta era exercida por sacerdotisas que exerciam um papel mais relevante que a dos sacerdotes e magos. Naturalmente os celtas eram muito apegados à fertilidade, ao crescimento da família e ao aumento da produção dos animais domésticos e dos campos de produção e isto estava ligado directamente ao lado feminino da natureza.Também a mulher é mais sensitiva do que o homem no que diz respeito às manifestações do sobrenatural, do lado sagrado da vida, portanto é obvio que elas canalizassem mais facilmente a energia nos cerimoniais, que fossem melhores intermediárias nas cerimônias sagradas.

Os celtas entendiam que a terra comporta-se como um autêntico ser vivo, que nela a energia flui tal como nos meridianos de acupuntura de uma pessoa. Eles sabiam bem como se utilizarem meios de controlar essa energia em beneficio da vida, das colheitas e da saúde. O grande desenvolvimento dos celtas foi no campo do como manipular a energia sem o envolvimento de tecnologia alguma, somente através da mente.


Geralmente pedras eram usadas como meios para o desvio e canalização de energia. As construções megalíticas eram condensadores e drenadores de energia telúrica, com elas criavam "shunts" nos canais de força telúrica, desviando-a para múltiplos fins. Os Celtas chegaram a ter pleno conhecimento de que as forças telúricas podiam ser controladas pela mente, que a energia mental interagia com outros campos de forças, e que a energia mental podia direccionar aos canais, ou até mesmo gerar canais secundários de força. Sabiam o que era a energia subtil, e que podiam aumentá-la de uma forma significativa mediante certos rituais praticados em lugares especiais.


Para isto escolhiam e preparavam adequadamente os locais ideais para suas cerimoniais sagradas. A realização das cerimónias celtas não se prendia somente ao lugar, também tinham muito a ver com a época do ano, com determinadas efemérides, por isto ocorriam em datas precisas, ocasiões em que as forças cósmicas mais facilmente interagiam com as forças telúricas. Os celtas sabiam que a energia telúrica sofria reflexões e refracções ao tocar coisas materiais, tal como ensina atualmente o Feng Shui, por isto é que eles praticavam seus rituais religiosos totalmente despidos. Isto não tinha qualquer conotação erótica, era antes um modo para a energia não ser impedida ou desviada pelas vestimentas.Também tinham conhecimentos de como viver em harmonia com a terra, da importância de manterem a terra sadia, assim sendo evitavam mutilá-la inutilmente e até mesmo da importância de tratá-la. Tal como um acupunturista trata uma pessoa quando o fluxo de energia não esta se processando de uma forma adequada, da mesma forma eles procediam com relação à "Mãe Terra".

14 março 2007

O festival Celta de Shamhain


O festival do Halloween tem sua origem no milenar festival Celta de Shamhain. Os Celtas viveram há 2000 no território que hoje chamamos Irlanda, e que faz parte da Grã-Bretanha, em parte no nordeste da França, mas também na Peninsula Ibérica. O Festival era celebrado no dia 1º de Novembro. Este dia marcava o final do verão e da colheita, que era seguido pelo período de inverno extremamente frio e com dias sem sol. Um longo período de escuridão.

Á meia-noite do dia 31 de Outubro, a celebração do Shamhain tinha início, quando se acreditava que os espíritos dos mortos voltavam para reviver na Terra. Esse espíritos causavam, além de outros danos, prejuízos nas plantações; o espantalho para afastar os espíritos das plantações tem características do Judas malhado na Semana Santa dos cristãos. Outros espíritos que vinham, ajudavam aos Druidas, sacerdotes Celtas, à premonição e leitura do futuro. Para o povo, era um grande conforto, acompanhar as profecias e orientações religiosas dos sacerdotes, pois isso os ajudava a proteger-se contra a escuridão e os perigos das trevas do inverno.

Uma interminável lista de tipos de celebrações são atribuídas ao Festival do Shamhain.

Pelo ano 43, A.C., os Romanos conquistaram a maioria dos territórios celta. No curso de 400 anos, os Romanos impuseram regras e lei nas terras celtas; dois festivais de origem Romana foram combinados com a tradição celta da celebração do Shamhain. A primeira foi a Feralia, um dia no final de Outubro quando os Romanos tradicionalmente comemoravam a passagem da morte. O segundo festival era um dia em honra de Pomona, a Deusa das frutas e das árvores. O símbolo de pomona é a maçã e, possivelmente tenha sido absorvida pelo Festival de Shamhain o que explica a introdução da maçã, nos dias de hoje.

Por volta do ano 800 D.C., por influência do Cristianismo, isto foi ampliado para todos os mais distantes territórios celtas. No século XVII, o papa Bonifácio IV, designou o mês de Novembro, no dia 1º, como o Dia de Todos os Santos e mártires. Acredita-se que tal iniciativa teria sido a de neutralizar o sentido do Shamhain; tanto que este dia foi considerado um Dia Santo.

Esta celebração, em inglês, passou a ser chamada de All-hallows ou All-hallowmas que em inglês antigo, Alholwemesse, significava Dia de Todos os Santos; seguindo no tempo, em inglês, provavelmente, o All-hallows Eve, tenha composto a corruptela Halloween. Mais tarde, por volta de 1000 D.C., foi instituído o Dia de Finados, celebrado em alguns territórios da Gália, onde hoje estão Portugal, Espanha, Itália etc. Em alguns desses países, principalmente a Espanha e muitos países latinos de língua espanhola, celebram O Dia dos Mortos com muitas festas, espetáculos pirotécnicos, desfiles de fantasias. Na verdade o Shamhain foi desmembrado em três festas.

Os esotéricos têm outra versão para o Hallowenn que começa pela origem da palavra Halloween que se originaria das Hallowinas, assim chamadas as guardiãs femininas do Saber Oculto das Terras do Norte ( Escandinávia ), predominância do domínio feminino, no que tangia ao conhecimento do Oculto ( ou seria do que era ocultado? )

Após a conquista das Gálias, pelos Romanos, os vencedores cuidaram de trabalhar para apagar a cultura pré-existente, como forma de desestruturar e impor a nova ordem, do dominador. Isso assegura ao vencedor, o afastamento do risco de reorganização do vencido.

A festa de Halloween, na verdade, equivale ao Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados, como foi absorvido pela Igreja Católica para apagar os vínculos pagãos, origem da festa.

O dia da comemoração dos mortos para os Cristãos, era o Ano Novo, para os Celtas. Exatamente à meia-noite, hora fechada aos vivos e única hora de passagem para os seres ( os mortos ) que habitam em outro plano astral em busca de pedido de perdão aos vivos para, assim, alcaçarem a paz.

Exatamente, como aconteceu aos druidas, proibidos das manifestações da sua cultura mas, que foi absorvida por transformações ao longo da História, na medida dos interesses de outras culturas e religiões. Mesmo hoje, em nossos dias, distanciados dos fatos Históricos ela permanece ocultada por camadas de aculturações. Mas, ainda assim, resiste.

Durante três dias, os Celtas acendiam velas dentro de cabeça de abóbora para indicar o caminhos àqueles que eles acreditavam serem visitados por seus parentes e receber o perdão daqueles a quem eles haviam feito sofrer. Fica esclarecido o significado da cabeça de abóbora iluminada por uma vela, além do significado de sabedoria (pela humildade para saber pedir perdão e como prova de vida além da vida).

23 fevereiro 2007

Sombras do caminho


Se faço sombra em meu caminho,
é porque há uma lâmpada em mim que ainda não foi acesa.

(Rabindranath Tagore)

25 julho 2006

Destino?


O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo.
O que for o teu desejo, assim será tua vontade.
O que for a tua vontade, assim serão teus actos.
O que forem os teus actos, assim será teu destino.
(Brhad Aranyaka Upanishad)

Os seis inimigos.


Luxúria, raiva e ganância são os três portões para o inferno que conduzem à ruína do indivíduo. Portanto, esses três devem ser abandonados.
(Bhagavad Gítá, XVI, 21)

Os antigos pensadores indianos estavam conscientes do dano causado à personalidade humana e às relações humanas pelas emoções descontroladas. É bastante conhecido o facto de que a Bhagavad Gítá refere-se frequentemente às emoções e considera o "sthitaprajña" (a pessoa de mente firme) como aquela que tem o controle sobre suas emoções.

Luxúria, raiva, ganância, arrogância, ilusão e cobiça - aquele que não ultrapassou esses seis jamais poderá alcançar a paz mental e tranquilidade.
(verso 101 do Sarvavedántasiddhántasárasangraha, Ádi Shankara)

O que leva a entender a necessidade da reencarnação até à libertação integral de cada um de nós... E a repetição de situações de aprendizagem, por vezes identicamente difíceis, como forma de nos incentivar ao esforço libertador da dor. Tudo é na vida, em suma, aprendizagem libertadora...

17 junho 2006

Pitágoras e a crença na reencarnação.


Allan kardec, no Livro dos Espritos, n.º 222, escreve o seguinte:

«Não é novo, dizem alguns, o dogma da reencarnação; ressuscitaram-no da doutrina de Pitágoras. Nunca dissemos ser de invenção moderna a Doutrina Espírita. Constituindo uma lei da Natureza, o Espiritismo há de ter existido desde a origem dos tempos e sempre nos esforçamos por demonstrar que dele se descobrem sinais na antiguidade mais remota. Pitágoras, como se sabe, não foi o autor do sistema da metempsicose; ele o colheu dos filósofos indianos e dos egípcios, que o tinham desde tempos imemoriais. A idéia da transmigração das almas formava, pois, uma crença vulgar, aceita pelos homens mais eminentes.»
(...)
«Portanto, ensinando o dogma da pluralidade das existências corporais, os Espíritos renovam uma doutrina que teve origem nas primeiras idades do mundo e que se conservou no íntimo de muitas pessoas, até aos nossos dias. Simplesmente, eles a apresentam de um ponto de vista mais racional, mais de acordo com as leis progressivas da Natureza e mais de conformidade com a sabedoria do Criador, despindo-a de todos os acessórios da superstição. Circunstância digna de nota é que não só neste livro os Espíritos a ensinaram no decurso dos últimos tempos: já antes da sua publicação, numerosas comunicações da mesma natureza se obtiveram em vários países, multiplicando-se depois, consideravelmente.»

Quem foi Pitágoras?

Pitágoras (570-500 a.C.) foi um filósofo e matemático grego, mas também lider religioso, místico. Nasceu em Samos, ilha grega na costa marítima do que hoje é a Turquia. Em Mileto, cidade grega, aprendeu Matemática com Tales (624-546 a.C.), o fundador da Matemática grega. Viajou muito, estudando com sábios: Egipto, Babilônia; Índia, onde terá firmado sua crença na reencarnação, encontrando Buda.
Em torno de 525 aC, Pitágoras mudou-se para Crotona, uma cidade ao sul da Itália, onde fundou a Ordem Pitagórica, escola filosófica que chegou a juntar 300 alunos, atraídos pelos ideais de respeito e justiça em harmonia com a natureza, e cuja existência se prolongou por mil anos desde sua fundação. A Escola Pitagórica tinha um caráter peculiarmente duplo: por um lado, dedicava-se a questões espirituais: os pitagóricos acreditavam na imortalidade da alma e na reencarnação e tinham a auto-reflexão como um dever consciente e imprescindível na espiritualização da vida; por outro lado, como parte dessa espiritualização, incluía estudos de Matemática, Astronomia e Música, o que lhe imprimiu um carácter também científico, no sentido moderno da palavra. O estudo da Matemática - confundindo-se com a filosofia, pois "tudo é número" - era feito para promover a harmonia da alma com o cosmo.
************
Dentre os princípios filosóficos que norteavam a escola pitagórica, destacam-se:
- a alma é imortal e reencarna-se;
- os acontecimentos da história repetem-se em certos ciclos;
- nada é inteiramente novo;
- todas as coisas vivas são afins;
- os princípios da Matemática são os princípios de todas as coisas: o universo se sustenta no equilíbrio dos números.
************
Ensinava-se a reencarnação, o aperfeiçoamento do homem, a astronomia, as virtudes e a obrigação com os deveres sociais. A disciplina era austera, pois o mal que atrasa a evolução do indivíduo tem origem nos abusos, nos vícios, e por consequência, no descontrole emocional. A disciplina vegetariana, a libertação dos desejos grosseiros e da ganância, o controle do egoísmo e do medo, a capacidade de perdoar as ofensas, segundo o pensamento pitagórico, fortalecem o carácter e mudam a visão curta da vingança para o perdão que quebra a dolorosa corrente da lei do talião. Para Pitágoras “Cada homem é para si mesmo, em absoluto, o caminho, a verdade, a vida”, antecipando o “Reino de Deus está em vós” ou o “Procurai em vós a solução sem cobrá-la dos outros”. Feliz é quem se satisfaz, controlando vaidades e ambições mundanas, pensando na eternidade que o espera e trazendo para si a felicidade e o êxtase da presença de Deus em seu íntimo.
A comunidade pitagórica de Crotona, inofensiva por natureza e voltada para a busca da paz, durou pouco. Sua fama despertou o interesse da juventude, de pessoas mais sensíveis, mas também o temor dos detentores do poder e da riqueza material que governavam com mão de ferro os territórios vizinhos e se sentiram ameaçados, porque sustentava Pitágoras que “O Estado existe para o benefício do governado”. A comunidade foi cercada; incendiada; discípulos morreram. Pitágoras conseguiu escapar, peregrinou pela Itália por mais duas décadas, transmitindo seus ensinamentos. Morreu com quase cem anos.

Dentre os principais nomes da Escola Pitagórica destacam-se:
Filolaus de Tarento (nasceu c. 470 a. C. e morreu c. 390 a. C.),
Arquitas de Tarento (nasceu em 428 a. C. aproximadamente)
e Hipasus de Metapontum (viveu por volta de 400 a. C.).
O pitagorismo influenciou fortemente as obras de Demócrito de Abdera e Platão.
Alguns séculos mais tarde houve uma revivência da Escola Pitagórica, e seus protagonistas passaram a ser chamados de neo-pitagóricos. Dentre esses destacamos Nicômaco de Gerasa, que viveu em torno do ano 100.

A Lei da Reencarnação.


«O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do espirito, é espírito. Não te maravilhes de eu te haver dito: necessário vos é nascer de novo.» Evang. S.João, Cap.III.

«A cada nova existência o Espírito dá um passo na senda do progresso; quando se despojou de todas a suas impurezas não precisa mais das provas da vida corpórea.» Allan Kardec, O Livro dos Espiritos, n.º 167.